O Pajubá (ou bajubá) é conhecido como o dialeto LGBT+, e é muito mais do que um punhado de gírias divertidas, como “lacre”, “bafo” ou “uó”. Cada vez mais incorporado ao vocabulário, especialmente ao dos jovens, possui raízes históricas e, o mais importante, de resistência.

Sua origem está na fusão de termos da língua portuguesa extraídos dos grupos étnico-linguísticos nagô e iorubá — que chegaram ao Brasil com os africanos escravizados originários da África Ocidental — e reproduzidos nas práticas de religiões afro-brasileiras.

Como os terreiros de candomblé sempre foram espaços de acolhimento para as minorias, até pelo fato de enfrentar a intolerância religiosa no Brasil, as pessoas LGBTs encontravam refúgio nos terreiros e também bebiam de sua cultura, passando a adaptar os termos africanos em outros contextos.

O pajubá foi ainda, uma importante forma de comunicação em código, principalmente para as mulheres trans e travestis que sofriam constantes perseguições da polícia. Nesse contexto de resistência e existência, a comunidade criou ferramentas para, através da linguagem, criar um senso de pertencimento, uma forma de afirmação identitária entre coletivos que são continuamente marginalizados e violentados.

ENEM

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”.

No ano passado, 4,1 milhões de estudantes se depararam com a frase acima enquanto resolviam a prova de Linguagens e Códigos da edição 2018 do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Ler atentamente o título do texto que a acompanhava, “Acuenda o Pajubá: conheça o ‘dialeto secreto’ utilizado por gays e travestis”, era essencial para resolver o estranhamento causado pela combinação pouco usual de palavras. Afinal, a mescla de português informal com uma fala próxima a línguas africanas pode soar incompreensível à primeira vista – principalmente se você não tem a mais remota ideia do que se trata o pajubá.

Mais do que criar termos que se aproximem de gírias no português, o pajubá reúne também características linguísticas próprias. Isso aparece, por exemplo, na fala. Há um movimento performático do corpo, tonalidade das palavras e contexto cultural em que aparecem. Por exemplo, a palavra “Irene”, que significa velho ou velha, por exemplo, costuma ser pronunciado “ireeeeeeeene”, como se fosse um berro.

Na prova do Enem, toda a questão servia para provocar os alunos sobre a existência de variações linguísticas no português falado. Marcava a alternativa correta quem concordava que a linguagem pajubá tem “status de dialeto para os falantes” e poderia ser considerado “parte do patrimônio linguístico brasileiro” por ser “consolidado por objetos formais de registro”.

Como “objetos formais de registro”, você pode entender referências na literatura, por exemplo. Criado durante o contexto de ditadura militar, provavelmente entre as décadas de 1960 e 1970, o pajubá ganhou seu primeiro documento oficial em 1995. O livro ganhou o nome “Diálogo de Bonecas”, e foi organizado por Jovana Baby, presidente da extinta Astral (Associação de Travestis e Liberados), do Rio de Janeiro. Entre as mais de 800 palavras listadas está “boneca”, palavra que define travesti.

Em 2006, outra obra independente tentou assumir esse status de “dicionário” do pajubá. “Aurélia, A Dicionária da Língua Afiada”, é assinada por Angelo Vip e Fred Libi. Em mais de 1.300 verbetes, o documento tenta revelar o significado das palavras mais utilizadas.

Mais do que um “dialeto LGBT”, as “linguagens pajubeyras”, como chama, funcionam como um instrumento linguístico-cultural que desafia normas de gênero e sexualidade, sendo um instrumento de gongação, que zomba da norma que oprime a comunidade minoritária.

O alvo principal são os padrões de gênero refletidos na linguagem. Muitos idiomas separam a maior parte de suas palavras em masculino ou feminino (a geladeira, o relógio). O pajubá rompe com isso colocando terminações com “a” em palavras masculinas para feminilizá-las – lê-se aqui, a “prédia”; a “relógia”; a “dicionária”.

A Universidade do Estado de Amazonas (UEA) compartilhou a questão destacando que o tema teve como base uma dissertação de mestrado de um aluno da instituição.

Para todos aqueles, dos curiosos aos não alfabetizados em pajubá, que ainda estejam na dúvida, a frase que abre essa parte do texto, pode ser traduzida como: “E aí, mulher! Não se faça de desentendida e pague meu dinheiro, deixe de mentiras se não eu puxo teu cabelo!”.

GLOSSÁRIO

Lançado em 2006 pelo jornalista Vitor Angelo e do pesquisador Fred Lib, o Aurelia é um dicionário de expressões oriundas do pajubá, que ainda não ganhou um mapeamento que dê conta da extensão do dialeto. Veja algumas delas:

a – art. def. fem.
No mundo gay, o artigo definido feminino é, em muitos casos, anteposto a substantivos próprios ou comuns do gênero masculino, sendo que, no caso dos comuns, o próprio substantivo passa, quando possível, para o feminino. Ex.: a Pedro, a Mário; a prédia; a fota; a relógia; a dicionária.

aquendar – (do bajubá) v.t.d.,t.i. e int.
1- Chamar para prestar atenção, prestar atenção 2- Fazer alguma função; 3- Pegar, roubar. Forma imperativa e sincopada do verbo: kuein! 4- Esconder o pênis

Bafos – adj.
Termo referente a algo ou alguém que causou alguma coisa. Ex.: aquela noite foi bafo, bi!”

Bicha-bofes – s.f.
Homossexual não afeminado, mas nem sempre ativo.

Bofes – s.m.
Homem heterossexual ou homossexual ativo.

Irene – adj (Regionalismo: Rio Grande do Sul)
Velho. O termo é pronunciado “ireeeeeeeene”

Jogar o picumã – expr.
Virar a cabeça, mudando o cabelo de lado, tal como as loiras fazem, com a intenção de menosprezar ou ignorar alguém.

Jurando (do v.t. e d.i. “jurar”)
Acreditar no hype; se sentindo. Expressão usada unicamente no gerúndio.

Picumã (do bajubá) – s.m.
Peruca, cabeleira, cabelo.

Sobre a artista: As ilustrações são da carioca Alice Pereira, autora da série Pequenas Felicidades Trans, em que narra a história de sua transição de gênero em quadrinhos.


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