Por Helena Vieira*

Um coração arrancado. Uma travesti em Campinas foi morta e teve o coração arrancado, sobre o peito aberto o assassino colocou a imagem de uma Santa. A justificativa? “Ele é um demônio”.

Ele havia passado a noite com ela. Roubou. Matou. Arrancou o coração, enrolou em um tecido e guardou debaixo do guarda-roupas de sua casa. A brutalidade física e simbólica deste crime faz com que as palavras faltem e o choro engasgue.

Que não reste dúvida que este é um crime transfóbico. Não importa a natureza da relação entre assassino e vítima. A tomada do coração, a associação com um demônio, a presença de uma santa, transformam esse episódio em um retrato sangrento e cruel dos tempos que se anunciam: as vidas, a saúde mental e os sujeitos envenenados por um fundamentalismo cruel e genocida.

Quando se trata das pessoas transexuais e travestis as formas de morrer são muitas e não se resumem ao espetáculo punitivo do suplício. A morte é processual e anunciada. Na ausência de reconhecimento do Estado. Na solidão afetiva. No abandono familiar. No esquecimento político. No desconhecimento. Na repulsa. No isolamento. No jornal que se recusa a usar nosso nome e gênero tais e quais lutamos para ter em vida.

Aos conservadores, talvez vocês não tenham dimensão da tragédia que seus discursos podem produzir. Olhem atentamente cada morte, causada por qualquer que seja a causa, reparem na crueldade da execução. Seja o assassino são ou não, percebam as associações que ele construiu e tomem nota da quantidade de sangue que goteja de suas línguas.

Aos companheiros de esquerda. Não tomem as pautas LGBTs como secundárias. Pode ser que sejamos poucos, comparativamente, mas o suplício a que nossos corpos tem sido submetidos é atroz. É uma atrocidade que anuncia que o céu está caindo, pra todo mundo.

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* Helena Vieira estuda Gênero, Sexualidade e Teoria Queer na Universidade Federal da Integração Luso-Afro-Brasileira; e escreve para Revista Fórum e HuffPost Brasil.

** Texto publicado originalmente em: encurtador.com.br/cDY26

Entenda o caso:

Na manhã desta segunda-feira (21) um homem que confessou ter matado uma travesti em Campinas (SP) – Caio Santos de Oliveira ainda guardou o coração da vítima. O órgão foi achado por policiais militares enrolado em um pano, debaixo do guarda-roupa. A informação é do G1.

Caio admitiu para a PM que fez sexo com a travesti, de 35 anos, cujo nome social não foi divulgado pela polícia. Depois de matar a vítima, ele ainda roubou eletrônicos e R$ 250. Chamando-a no masculino, disse que ela era “um demônio”.

Ele foi apresentado à imprensa hoje e falou sobre o crime com falas desconexas e sorrisos. Ele disse que conheceu a vítima na véspera do crime, no Bar da Mãe – a travesti era dona do local. No mesmo local, um quarto em cima onde vivia a travesti, eles fizeram sexo.

A PM abordou o criminoso porque ele se comportou de maneira suspeita na rua quando viu a viatura. Ele se identificou com dados falsos para os policiais. No momento da abordagem, Oliveira tinha escoriações diversas e um ferimento na cabeça. Questionado sobre esses ferimentos, ele acabou confessando o crime e levou os policiais até o local em que estava o corpo.

O corpo tinha o tórax aberto e uma imagem de santo estava por cima. Ele foi questionado sobre o coração da vítima e disse somente que guardou o órgão para si.

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