Por Jock Dean*, com ilustração de Natalie Foss.

Outro dia estava conversando com alguns amigos sobre sexo e afetividade. Eu sou um homem gay cuja performance de gênero foge às regras da heteronormatividade. Eu sou uma bicha afeminada que usa esmalte e maquiagem todos os dias. Seja para ir para o trabalho, seja para tomar umas cervejas com os amigos em um bar em noites de futebol. Eu não uso maquiagem ou esmalte só para dar close no rolezinho desconstruidão. Todas essas coisas fazem parte do meu dia a dia. Todo mundo que me conheceu nos últimos cinco anos me conheceu assim. E eu gosto da imagem que eu vejo no espelho todas as manhãs quando saio para trabalhar.

Mas com o tempo eu percebi que, sobretudo nos últimos três ou quatro anos, quando consolidei a minha expressão de gênero, que as minhas experiências afetivas e sexuais passaram para outro campo e, na maioria das vezes, eu me vejo em situações comumente relatadas por mulheres travestis e transexuais: a fetichização.

Funciona mais ou menos assim: o cara entra no banheiro do shopping, vê a bichinha aqui de shortinho, cabelo comprido, esmalte vermelho, batom e sem o menor pudor pergunta se eu não quero ir rapidinho no carro dele porque ele está afim de gozar. As abordagens “mais românticas” vem sempre seguidas da frase “eu quero ter experiência com um homem feminino igual a ti”. Além de uma série de cosias ainda mais bizarras que só por essas duas vocês podem supor o que venham a ser.

Claro que tudo isso tem que ser feito sempre com muito sigilo e discrição. Mas não é no estilo “só curto com brother macho no sigilo” tão típico na comunidade gay onde ninguém é nem curte afeminados. É pior porque eu sequer sou visto como uma pessoa que como qualquer outra pode ou não se interessar afetiva ou sexualmente por alguém. Eu sou só um objeto de prazer. Só um corpo. Na verdade, só um cu onde alguém quer meter o pau rapidinho, gozar e ir embora. Meu corpo está à disposição e eu é que sou a bicha louca e metida por dizer não. Absurdo a bichinha aqui não agradecer por ter alguém disponibilizando seu pinto para mim.

Neste mesmo período praticamente não apareceu ninguém me paquerando de forma saudável. Sabe isso de você se interessar por uma pessoa, querer conhecê-la mais, marcar um role para tomar uma cerveja, bater um papo, caminhar, falar bobagem e que pode ou não terminar em sexo? Enfim, essas coisas comuns que todo mundo que tem uma vida afetiva e sexual normais fazem.

E isso é uma merda porque de tanto cruzar com gente escrota, quando eu conheço alguém que me trata como gente de verdade, que faz todas essas bobagens que a gente faz quando quer conquistar alguém seja só para poder terminar a noite no motel, eu acabo me apegando fácil. Não precisa muito esforço, não. Basta um abraço porque vocês pegaram chuva à noite e ele não quer que você sinta frio. Pronto.

E isso é ruim porque de tão raro você vai tendo dificuldade de discernir se está só com tesão, se é carência ou se você realmente está sentindo algo mais forte pela pessoa. E você acaba tomando tanta cautela para não passar por desesperada que perde o time e quando você realmente entende que estava mesmo interessado e que aquela pessoa pode ser uma boa companhia para você, ela já está em outra porque nunca imaginou que você tinha outras intenções ou ela simplesmente perdeu o interesse diante da suas inseguranças. Com isso vai se consolidando um ciclo de frustrações e você vai continuando sozinho.

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*Jock Dean é maranhense, jornalista e assessor de comunicação.

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