Por Miguel Rios*, com ilustração de Sean Morris.

O que deixei de ser e de viver, minhas renúncias e recusas, não se foram por completo. Vez por outra, me volta a pergunta: e se eu fosse efeminado? Pois é, ser másculo não é tão natural assim. Se eu não tivesse nascido, crescido e treinado por todo o meu entorno, eu acreditaria e obedeceria que se eu fosse feminino, pintoso, poc mesmo, meu valor cairia no mercado e minha vida estaria mais em risco?

O mundo pensa assim e o mundo me moldou a pensar assim. Se eu calçasse sandálias da minha mãe quando pequeno, era logo repreendido. Se eu tocasse em alguma boneca das primas, a bronca era igual. Era levado de imediato aos cabides de roupas de menino nas lojas. Era matriculado nos esportes de menino no colégio. “Homem não pode ser mulher. É feio demais” me era repetido como um disco arranhado durante infância e adolescência, juventude, e até agora, na maturidade, ainda escuto.

Sobrevivi . Consegui me levar, me adaptando.  Ser gay, mas não ser efeminado. Não ser poc, me esforçar na masculinidade. Vigiei meus quadris, minhas munhecas, minha voz. Rejeitei acessórios para não dar pinta. Escolhi amizades que também me garantiriam o posto de másculo. Entrei na linha de montagem e saí um gay produto da heteronorma que nos cerca e nos fiscaliza.

Sem a pressão, seria eu muito mais feminino? Usaria batom e rímel? Dançaria Vogue em público? Não sei. Sei que com o bate-estaca da heteronorma, eu me fiz muito mais masculino. Para escapar de olhares e pedras.  Por camuflagem, que traz mais segurança,  que atrai mais aceitação, que não garante blindagem total, mas o medo fala mais alto em vários momentos.

Sem obedecer à heteronorma, talvez eu estivesse morto. Assassinado por transgredir.

O cara gay já é visto como um homem menor, uma desonra à masculinidade, por se aproximar mais da posição considerada feminina. Quanto mais efeminado for, mais ridicularizado será, mais tratado como não homem, não humano. Tanto que se acha que o ativo da relação é mais homem que o passivo. Eu não escapei de tal formatação. Passei boa parte da vida lambendo essas botas.

Por agora, meu esforço não é para me efeminar. É para compreender que o gay poc é também masculino. Assim como é feminino. Assim como eu também sou masculino e feminino. Parece papo de Pepeu Gomes, mas basta dar um flashback histórico. No Egito antigo, os homens se maquiavam. Na Grécia e Roma antigas, usavam saiazinhas, franjas encaracoladas. Chineses já usaram coques, vestidos de cetim. Europeus já usaram perucas de cachos, empoaram o rosto, vestiram babados e brocados, agitaram lencinhos, calçaram saltos altos.

Até metade dos anos 1960, homens cortavam seu cabelo ao estilo militar. Os jovens que ousaram deixá-los crescer pela onde Beatles eram arrastados por seus pais para as barbearias. As primeiras mulheres que afrontaram a sociedade com calças compridas foram taxadas de indecentes e até caso de polícia. Hoje, mulheres de cabelos curtos e homens de cabelos compridos são banais.

Explicação simples para tanto vaivém: não existem comportamento e aparência de gênero. Existem condicionamento e convenções de acordo com a época e a cultura onde se vive. .  Escoceses usam kilt. Indianos passam kajal.  A gente acata e cumpre o que nos é doutrinado.

Fui um dos submissos. Me tornei e me interessei pelo produto social homem másculo. Desejei a imagem do homem másculo, o porte do homem másculo, o seu jeito de ser, de vestir, de falar. Fui cooptado pelo marketing de bombardeio. Não me culpo. Era, e ainda é, artilharia pesada. Vinha de todos os lados: dos homos, dos héteros, dos bis, até de trans, até de efeminados.

Nas boates, o padrão macho era exaltado. Nas novelas da Globo, na G Magazine, no pornô gay. O efeminado era lido como o engraçado, o que a gente se aproximava em certos lugares para se divertir, mas se afastava em outros lugares para não se sujar. Quem escapou dessa hipnose coletiva, eu mando minhas sinceras reverências.

Eu me mantive na cela por muito tempo e tento fujir, ainda que tardiamente e aos poucos. Impossível me quebrar inteiro e me reconstruir poc. Seria falso. O que eu anexei na minha trajetória se atou a mim de maneira simbionte. Segue vivo pelo meu organismo.

Nem sempre tenho condições de escolher o que permanecerá comigo. Minhas contradições, minhas descobertas, minhas revoluções e minhas teias de aranha, vou ajeitando nas frestas da alma.

No entanto, me revejo. Me dou o direito de já não me monitorar, nem de me importar se vão me achar mais ou menos bicha, mais ou menos macho, por uma expressão pajubá, um tratamento no feminino ou uma perna cruzada.

Ser uma poc não me assusta mais. Confesso que ainda me falta a coragem de uma.

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*Miguel Rios é jornalista, nascido e criado cruzando as pontes do Recife, fã dos X-Men e filho de Oxalá.

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