Por Miguel Rios*

Após a morte de Cristiano me vi em um silêncio de um apartamento que se esvaziou por uma tragédia. Segui trôpego, me escorando aqui e ali no posterior, no vácuo forçado e brutal de 18 anos de amor de casado rompidos como que a machadadas. É impossível me despedir dele. Ir em frente sem, vez ou outra, olhar para trás. Haverá o sorriso largo, o agarrar de surpresa, a voz alta, a galhofa, impressos em cada neurônio da minha memória. Ele está nas reações que imagino que teria diante de cada situação que vivo.

O que conto a seguir é sem intenção de ensinar, nem de entristecer. Mas de desabafar mais uma vez e de vez. Passaram-se dois anos e quero narrar em definitivo nossa história, se bem que nenhum textãozão vai impedi-la de colidir comigo lá por dentro, sem me pedir licença.

Vamos lá:

Com Cristiano, eu dormia e acordava lado a lado, dia a dia, sem vontade de que fosse diferente. Sem que a rotina fosse infecção. Ao contrário, foi parceria, fez o ano a ano apurar, laço virar nó. Amor usado, amaciado, que nem jeans velho. Paixão que perdeu a urgência.

Tenho incertezas de como esse nó se encontra. Nem sei se perdi Cristiano de vez, se estamos dando um tempo por motivo de força maior, se o não enxergá-lo, o não ouvi-lo, o não tocá-lo e o não cheirá-lo são provisórios. Não sei se senti-lo perto, ainda ligado, em certos momentos, é ilusão. Crença e ceticismo se alternam soprando na minha nuca. Sei que a privação dele me é diária e, quando bate forte, me faz suspirar sem fôlego.

Impossível ser diferente. Nossa história me é tatuagem de corpo inteiro, pintada ao longo de 365 dias multiplicado por 18. Em janeiro de 1998, Cristiano foi minha aposta. Das feitas sem muita certeza de vitória, somente pelo vício, pelo indispensável impulso de querer se dar bem, de “por que não?” A gente se conheceu no dia 4. Dia 12 já morávamos juntos e daí nunca mais em camas separadas. Ele veio morar no meu quarto, no apartamento da minha mãe. Um dos meus maiores passos para fora do armário.

Tempos depois, fomos para Buenos Aires, primeira das muitas viagens juntos. Mais um tempinho se passou, compramos um Uno usado, para vencer as distâncias geográficas e aumentar o lado a lado. Tempos em que saíamos muito para boates, bares, praias e tudo mais que é canto onde tivesse álcool e a galera animada colorida.

Tempos depois, mudamos para um apartamento quarto, sala e banheiro, onde tinha uma geladeira, um fogão, um chuveiro elétrico, uma TV 22 polegadas, um colchão no chão e um guarda-roupa feito de caixas de papelão colhidas em supermercado. Um novo móvel ia chegando a cada final de prestação de outro.

Tempos depois, viajamos para a Europa. Munique, Madri e Paris. Teve planejamento, mas teve cartão estourado. Sonho tem preço. Mas teve negociação pagável e zero arrependimento.

Mais tempo se passou e, com mais idade, resumimos as saídas mais ao período diurno, a festas menos vibrantes. A experiência de que nada mais era tão diferente e o sono como companheiro insistente nos aquietaram.

Tempos depois, assinamos a união estável em 15 de março de 2012. A cada entressafra, fomos perdendo cada vez mais o medo de sermos quem somos, o que somos e tendo consciência de que assumir palavras como gay, homossexual, viado, seja qual for, são atitudes políticas e um banho de descarrego na alma, de desarmar o adversário deixando com uma munição falha.

Tempos depois, brigas depois, tivemos uma séria que nos levou a romper. Resolvida a rusga, tudo voltou às boas.

Como se percebe, Cristiano foi meu diário. Miguel impresso nele. Conquistas, satisfações, preguiças, chateações, perdas e danos. Foi minha agenda, meu secretário, meu chefe, meu cobrador. Ele sabia meu CPF, meu RG, minha senha de banco, negociava com telemarketings se passando por mim, marcava eventos sem me avisar, quando muito em cima da hora e alegava que minha memória era ruim.

Cristiano foi meu alicerce. Minha estrutura de concreto. Nem nas piores brigas e crises me dizia “Acabou”, “Tô na dúvida”, “Vamos dar um tempo”. Nunca.

Foi o meu compromisso máximo de vida e de convivência. Ninguém soube e aguentou mais minhas crises, cóleras, friezas, arrogâncias, meus xingamentos, meus mais piegas pedidos de desculpas. Navalhei minha carne diante dele, sarjei tumores, excretei verdades e tabus. Ninguém se divertiu mais comigo, nem me fez mais rir, nem me fez desobrigar de programas fora de casa para curtir pipoca a dois. Cristiano me arrebanhou amigos. E me fez dispensá-los se necessário. Para quê? A gente se bastava.

Foi meu incentivo do “temos de fazer”, “temos de comprar”, “temos de ir”, “temos que viajar”. Eu, que me abusava e achava tantas vezes supérfluos, procuro arrependimentos e cadê?

Era o meu Cosme, de eu seu Damião. Impossível nos imaginar apartados. Avião sem asa, queijo sem goiabada, namoro sem beijinho, Bochecha sem Claudinho.

Em 6 janeiro de 2015, Cristiano se internou com febre e dificuldades respiratórias. E não saiu com vida. Foram 16 meses entre UTI e quarto particular. Diagnóstico de Síndrome de Guillain Barré. Uma doença autoimune que ataca o sistema nervoso e que no caso de Cristiano lhe lesionou o cérebro de forma drástica.

Em estado grave, foi desenganado. Previsão de que iria piorar e piorar, até se tornar irreversível. E nos levou, a mim e à família, optar pela ortotanásia. Mas desafiou os prognósticos, recuperou-se um pouco, recuperou-se mais, começou a respirar melhor, a responder aos exercícios de fisioterapia e largou a respiração mecânica. Abriu olhos e os movia. Surpreendeu médicos, desafiou a letra fria da neurologia. Saiu do coma, saiu do estado vegetativo. Saiu da UTI. Recuperou nossa fé nele.

Dividi com ele um quarto de hospital como acompanhante durante oito meses. Morei em um hospital. Entre melhoras, pioras, Cristiano já percebia o ambiente e interagia vez por outra conosco, virava a cabeça em nossa direção ao escutar nossas vozes, mas mantinha a incógnita de como nos percebia. Era uma porta entreaberta. Ganhos passaram, mesmo que no pinga-pinga.

Mas Cristiano virou o vento que não tinha como segurar. Respirava-o, mas, mesmo querendo retê-lo, precisei soltá-lo. Morreu em 18 de abril de 2016, quando médicos e nós familiares não acreditávamos mais que morreria.

Cristiano foi meu baque inconcebível. Quando se internou, acreditei ser coisa pouca, me veio apenas uma preocupação remota. Apostei em infecção respiratória a se resolver, no máximo, em três dias. Que engano. A força nas pernas reduziu a zero, ofegava, as dores vieram, a imobilidade corporal que chamava por meu amparo.

Cristiano se tornou meu filho. Tinha de levá-lo ao banheiro, dar-lhe banho, apoiá-lo para comer, dar-lhe água, perguntar se tinha melhorado, se precisava de algo, tirar-lhe a temperatura, velar-lhe o sono. Tremer com ele pela dúvida de presente e futuro.

Em 16 de janeiro, Cristiano se tornou meu pesadelo. UTI. A respiração piorou, foi para o tubo, acabou sedado. Desacordou. Fim do Cristiano que conheci. Não voltou nunca mais a ser como era.

Seguiram-se despertares agoniados, novas sedações, visões assustadoras dele se contorcendo e tragando ar como um peixe fora d’água. Comecei a saber o que são descargas de adrenalina misturadas com depressão, com formigamento, com desesperança a trocar socos com a fé, com noites solitárias ao lado de um poço rudemente escavado e a vontade inútil de querer o tempo voltando para trás. E a dúvida, essa torturadora com requintes de crueldade, a me abraçar por trás e murmurar, em revezamento, previsões antagônicas no meu ouvido.

Cristiano, após 25 de fevereiro, era um fiapo de esperança no qual caminhei. Constatadas lesões cerebrais profundas, expectativas de voltar à tona improváveis. Causas? Indecifráveis. Tratamentos? Acenos negativos das cabeças médicas. Cristiano, com atestado, se apagou.

Pisei por meses em uma linha frágil, equilibrando amor/dor, esperança/descrença, prece/ateísmo, desânimo/fúria. Fui. Só fui. Fui até não sei quando sem vê-lo olhar para mim, falar comigo, me dar um abraço, beijo, perturbar meu juízo, dançar nu loucamente dentro de casa, cantar Let it go atirando cubos de gelo no chão.

Passei dias, meses, com os olhos em busca de um sinal de reviver em seu corpo inerte, que podia nem estar lá, ser pura autossugestão, mas me foi vital que estivesse, que eu dispensasse provas, ao menos por alguns momentos. Dias de “se” significando uma frase inteira: “já pensou se é?” E retornando reduzido ao “se”, de maior fraqueza e franqueza, pois verdade e bondade só rimam, não são sinônimos.

Dias de cinzas e não mais carnaval. Dias de noites com estrelas arrancadas. Dias insossos, insípidos, de amarguras e apatias. De catar migalhas de riso em mim. De lembranças nossas que entravam macias e saíam serrilhadas. De evitar reunir meus estilhaços, que minhas imagens refletidas nem queria ver.

Cristiano foi minha incógnita/certeza. Minha âncora para navegar ao redor de um corpo com mente à deriva. Fez valer nossa promessa infantil e sincera, meio Supergêmeos, meio Batman e Robin: “Sempre juntos!”

Cristiano foi o meu inacreditável a cada manhã nascendo. Como aquilo era possível?

Assim como o papel da nossa união estável teve uma simbologia enorme e feliz, do Estado reconhecendo nossa cidadania, nosso direito de nos unir porque queríamos e nos amávamos, nosso atestado de que agora é o governo contra os preconceituosos e não contra nós, o documento judicial da interdição dele teve a simbologia inversa, mas também oficial: Cristiano não tinha condições de cuidar de si, de resolver sua vida por si. A cada assinatura minha por ele, cada decisão minha por ele, como curador, eu dava fé que ele se encontrava incapacitado.

Era um Cristiano debilitado ao extremo. De massa muscular esvaída. Ossos mais que carne. De pele acinzentada pela falta de Sol e excesso de medicamentos.

Mas ele confirmou sua rebeldia e suas doses arrogância que tanto me irritavam. Desconstruiu prognósticos pessimistas e desafiou a letra fria da neurologia. Persistia em permanecer, em renascer. Longe da morte, longe da semimorte do estado vegetativo.

Voltou a interagir. Reagiu. Saiu da UTI. Voltamos a morar juntos, mesmo que em um quarto de hospital. Voltou a me olhar, a olhar todos, a fazer cara de dor e raiva quando incomodado, que agitava as mãos para chamar minha atenção, que punha a língua para fora quando o provoco com o mesmo ato, que assistia a futebol no SporTV, que vidrou os olhos na tela por mais de 90 minutos no jogo em que o Santa Cruz garantiu presença na Série A 2016.

Ninguém sabia direito o que ele pensava, como percebia o entorno, como lembrava, como conectava informações e sensações. Eu não sabia como ele me reconhecia, como eu me fazia entender, até onde eu era o Miguel de sempre ou um novo Miguel, um que se apresentava, um que era pinçado aos poucos e sem linearidade da memória dele ou um ninguém.

Havia momentos de maior convicção minha de que ele me reconhecia por completo. Em outros, me parecia olhar como a um holograma tagarela e sem sentido. Vivia a caçar fagulhas de consciência no lusco-fusco de suas expressões. Na corda bamba do devaneio e do concreto. Eu catava gestos nele que podia transformar em códigos, signos, linguagem, comunicação. Lia seu rosto, seus movimentos corporais, e identificava desgosto ou relaxamento, dor ou prazer.

Segurá-lo, banhá-lo, limpar-lhe as secreções e excreções, acalmá-lo, carregá-lo nos braços. Tinha perdido tanta massa muscular que conseguia levantá-lo. Vigiava-lhe o sono. Interrompia minhas leituras, descansos refeições ao desconfiar de algum desconforto. Éramos mais que cônjuges, amantes, irmãos, paciente e cuidador. Éramos mãe e recém-nascido.

E notei que quanto mais Cristiano recobrava consciência mais se percebia em seu estado de invalidez. O que o deprimia, o estressava, o revoltava, o desesperava.

No sábado antes do dia da sua morte, sua expressão facial mostrava o quanto sofria. Agitou os braços para tentar arrancar a sonda gástrica e até o tubo que levava uma lufada de oxigênio ao traqueóstomo. Me foi visível sua enorme insatisfação de estar ali, daquele jeito, e com poucas esperanças de ser de novo o mesmo Cristiano. Ele carregaria sequelas sérias. A condição lhe era insuportável. Curativos, picadas de agulha, procedimentos quase 24 horas por dia.

Eu insisti em uma conversa naquele sábado, onde ele mostrava raiva e dor no olhar, que os ganhos neurológicos inegáveis. Mas quem sou eu pra escolher por ele? Quem sou eu para insistir por ele? Persistimos até onde ele ganhou consciência suficiente para reivindicar seu protagonismo.

A vida era dele. E ele colocou um ponto final.

Cristiano chegou a adormecer e eu cochilei ao seu lado. Despertei com a sensação de uma espetada no ombro. Dei de cara com meu companheiro de 18 anos morto. Correria de médicos e enfermeiros, tentativa de reanimá-lo. Eu, mesmo soterrado em nem sei o quê, com noção sei lá de onde, determinei o óbvio. “Ele está morto”. Fim das tentativas de ressuscitá-lo.

A palavra final foi dele como tinha que ser. Agradeço-lhe os grandes anos da minha vida, uma relação que será sempre nossa e indestrutível. Vou chorar a cada dia após o outro. Pois para chorar, dispenso lágrimas.

Cristiano me será sempre pétreo e vivo, nunca ausente mesmo que sem toque, cheiro ou visão. Mais que uma lembrança, uma presença.

Ele me será sempre a pessoa que se jogou comigo na aventura de um amor entre homens, que dizem ser infértil, mas que me gerou a certeza de que dois é muito mais que dois. Será muito além de fotos ou lugares marcantes. Será Cristiano, o que me convenceu de que o amor existe e de que vale a pena. Tanto que me não me enlutei em um casulo. Parti para outra relação com Rodrigo. Restaurei afetos, parceria e alegrias.

Cristiano me é o amor que existiu e que existe. Ele vive em mim, na nossa evidência de que é possível.

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*Miguel Rios é jornalista, nascido e criado cruzando as pontes do Recife, fã dos X-Men e filho de Oxalá.

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