A professora Nice Stelter Passos, de Novo Hamburgo (RS), ganhou na Justiça o direito de receber indenização de um homem que espalhou na internet que ela estaria incentivando a homossexualidade em suas aulas. Na época, a professora recebeu uma série de ofensas e até mesmo ameças de morte.

A indenização foi determinada na decisão de primeiro grau, pela Vara de Juizado Especial Cível de Novo Hamburgo, com valor de R$ 5 mil. No julgamento do recurso, a segunda turma recursal da comarca confirmou a condenação, e baixou a indenização para R$ 3 mil, levando em conta as capacidades econômicas dos envolvidos.

A publicação aconteceu em março do ano passado e segundo a advogada da professora, Fernanda Monteiro Bidinoto, o irmão do réu, aluno de Nice, teria informado à família que a professora estava ensinando ‘ideologia de gênero’ (sic) e incentivando a homossexualidade e adultério em sala de aula.

O irmão então, sem conversar com a escola, ou com a professora, fez uma postagem “alertando” outros pais. “Devemos combater esse tipo de monstruosidade, pois quem ensina aos nossos filhos sobre sexualidade somos nós, pois homem nasce homem e mulher nasce mulher, simples assim”, dizia o texto que foi excluido posteriormente pelo autor.

A mensagem foi publicada em dois grupos de Facebook. Um destinado aos professores e pais da escola, e outro, com mais de 50 mil membros, criado para discutir as questões da cidade de Novo Hamburgo. Nos comentários deste último, o réu postou o nome e o perfil da professora.

“A gente não pode discriminar desta forma, tem que cuidar muito com o Facebook. Ela poderia ter sido linchada”, explica a advogada. “O Facebook é uma máquina de repercussão gigantesca. Ele poderia ter procurado outra alternativa, falando com a professora ou com a escola”.

A aula

Nice Stelter Passos é professora há 10 anos, e contou em entrevista ao G1 que a aula referida aconteceu no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. “Ao invés de uma aula pragmática, resolvi levar para sala de aula o discurso da Emma Watson, em um evento da ONU Mulher, em 2014, em que ela explica porque é feminista”.

Além do discurso, a professora também exibiu vídeos de uma campanha de televisão sobre desconstrução de gênero e igualdade. “Começamos discussão sobre o que os alunos entendiam por gênero, sexualidade e orientação sexual, três tópicos que coloquei no quadro”, explicou Nice, que na época também ocupava o cargo de vice-diretora da escola, no turno da tarde.

Ela explica que os conteúdos da aula foram tirados do site da ONU, que tem recomendações sobre como abordar o tema em sala de aula. Além disso, Nice comenta que os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, determinados pelo Ministério da Educação, contemplam a inclusão da discussão do gênero como conteúdo escolar.

“O meu objetivo principal [com a ação] não era ganhar o dinheiro. Era alertar que as redes sociais não são uma terra sem lei. Tu tem que saber o que tu tá publicando. Isso [a postagem] é incitação ao ódio”, diz a professora.

Com informações do G1.


Veja também:

Segundo pesquisa, brasileiros são agressivos na ‘paquera’ e LGBTs são os que mais sofrem

Aluno de medicina relata homofobia vivenciada dentro da UFRJ

Related Posts

Comentários

Comentário