Por Danilo Motta*

A entrevistada da vez é a candidata Talita Victor, que disputa uma vaga na Câmara de Deputados pelo PSOL do DF. Seu número é 5044. Conheça algumas de suas ideias:

Por que você quer ser deputada federal?

Por indignação, mas também esperança. Eu estou concorrendo à vaga de deputada federal porque acredito que a política precisa de mais de nós. O Brasil precisa de mais de nós e isso é possível. O Congresso Nacional hoje é composto, em sua enorme maioria, por homens brancos, cisgênero, heterossexuais, corruptos, que representam as elites e o patriarcado. Na Câmara, são 90% de homens e apenas um de nós, LGBT orgulhoso, que é o Jean Wyllys. Nenhuma lésbica ou transexual. Acompanho diariamente o trabalho do Jean, como assessora técnica da bancada do PSOL, e presencio os ataques absurdos que ele sofre. A chamada bancada BBB (Bíblia, Bala, Boi) é a bancada armamentista, ruralista e fundamentalista. Essa aliança perversa tem crescido vertiginosamente e avançado contra nossos direitos e nossa existência. Esse cenário perigoso exige de nós uma urgente organização da resistência.

Como avalia a importância de candidaturas LGBT?

Em 2018, quase quadruplicamos a quantidade de candidaturas LGBT, se compararmos com 2014, o que é bom. E o PSOL é o partido que mais aposta na gente, seguido por PT e PCdoB. De fato, é importante que lutemos por espaço em todos os partidos políticos; porque, afinal, [nem] toda LGBT é de esquerda. Mas, infelizmente, sabemos que muitas LGBT são usadas como “peças de decoração” por algumas agremiações de direita, que não priorizam nossas candidaturas e tampouco nossa agenda por direitos. Partidos como PP, DEM, MDB, entre outros, têm estratégias eleitoreiras para abocanhar votos LGBT e, no fim das contas, esses votos ajudam a eleger nossos próprios inimigos.

Quais projetos devem ser priorizados em um eventual mandato?

Trabalho com o processo legislativo desde 2008. Não é fácil aprovar um projeto de lei na Câmara. Mas também sei que já existem muitos projetos importantes, que já foram apresentados inclusive pelo PSOL. Contudo, pra aprovarmos, é preciso organizar bancadas e lideranças, ter de novo uma frente parlamentar LGBT e fazer muita pressão de fora pra dentro. Nosso programa selecionou 44 iniciativas, dentre as quais destaco algumas matérias cuja tramitação temos de fazer avançar: o Estatuto da Diversidade, o Estatuto das Famílias, o PL João Nery, a Escola Livre, o casamento civil igualitário, as casas de acolhimento para LGBT, a igualdade salarial entre homens e mulheres, a taxação de grandes fortunas e herança, o imposto de renda progressivo, o limite da propriedade, a regulamentação e descriminalização do aborto. Queremos também licença parental, revogação da lei antiterrorismo, transição das vagas do Prouni para as universidades públicas. Por fim, não podemos perder de vista que, nos primeiros dias da próxima legislatura, temos de batalhar muito para desfazer a tragédia provocada por Temer e sua quadrilha. Foram quase 130 medidas provisórias e a maioria trouxe retrocessos graves. Não vai ser nada fácil, por exemplo, revogar a PEC do teto dos gastos, mas temos de buscar todos os meios para enfrentar esse golpe contra o povo brasileiro.

Quais os principais desafios para os LGBTs e as mulheres de Brasília?

Vivemos em um país perigoso a população LGBT, as mulheres e as meninas. O Brasil é um dos países com os maiores índices de morte LGBTfóbica e o quinto no ranking de feminicídios (uma taxa que aumenta a cada ano). Somente no DF, contamos 19 feminicídios este ano. Até maio, mais de 150 LGBTs foram assassinados no país, mas esse número pode ser ainda maior, considerando as dificuldades de se registrarem motivações que tenham como pano de fundo o ódio contra LGBTs. Nos negam saúde, emprego e segurança. Não à toa, a expectativa de vida de uma mulher trans e travestis é de 35 anos. A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada e metade dos crimes cometidos é contra meninas de até 13 anos, segundo o Atlas da Violência. Ainda ganhamos menos, trabalhamos mais e ocupamos menos cargos de chefia. Ainda somos violentadas física, psicológica, moral e simbolicamente. E, definitivamente, a solução passa longe de vender uma arma de fogo para cada mulher, menina e LGBT no Brasil. Hoje, a Lei da Mordaça conhecida como “Escola sem Partido” pretende banir conteúdos sobre igualdade de gênero, orientação sexual e mesmo educação para uma sexualidade sadia dos currículos escolares, livros didáticos e até mesmo dos vestibulares, ameaçando de criminalização profissionais de educação. Os fundamentalistas do Congresso também têm projeto para retirar de nós LGBT o direito de constituir família, tornar crime hediondo o aborto mesmo em caso de estupro, enquanto aprovam o fim de direitos trabalhistas que provocam desemprego, sobretudo entre as mulheres. Eles têm projetos até mesmo para criminalizar o uso de banheiros por pessoas trans e regulamentar o trabalho escravo. Pasmem. É difícil de acreditar, mas é verdade. E nosso desafio é resistir a tudo isso, conseguindo brechas para avançar.

deputada federal DF

Por que a escolha pelo PSOL?

Porque é uma ferramenta de luta extremamente necessária. Fiz o curso de Ciência Política na UnB, fui do Centro Acadêmico e do DCE. Fui do comitê Lula Presidente já no meu primeiro ano na universidade, em 2002. Mas o pacto de governabilidade baseado em alianças com as elites para aprovar, por exemplo, a Reforma da Previdência, foi um choque pra todos que acreditávamos que mudanças profundas, de baixo pra cima, estavam por vir. A rápida opção daquele governo de alimentar pesadamente o sistema financeiro, o agronegócio e as empreiteiras, além de estimular o crescimento do fundamentalismo neopentecostal em dissidências como PRB e PSC, fez morrerem muitos sonhos dentro de mim. Felizmente, nasceram outros. Entendi que a esquerda precisava se reorganizar para o momento posterior aos governos de Lula e do PT. Em 2005, me filiei ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL 50) porque entendi que, apesar de ser um processo em permanente construção, era a aposta mais coerente a ser fazer. De lá para cá, as eleições municipais de 2016 foram um marco, porque deram um sinal claro para as esquerdas. Havia chegado a hora das mulheres. Acredito que a luta LGBT, sobretudo das mulheres lésbicas, por espaço na política, não será a mesma depois de Marielle Franco. E tenho muito orgulho de ela ser uma companheira do PSOL, desde 2005 também. Ano passado, quando ela tentou a aprovação do dia da visibilidade lésbica no Rio, e teve seu projeto rejeitado por apenas dois votos, ela disse: “Vai ter muita luta e mulher lésbica na Câmara [política]”. Nós devemos isso a ela. De todos os projetos de Marielle que a Câmara do Rio aprovou, este foi o único que ficou de fora. Ainda.

* Danilo Motta é jornalista e mestre em Literatura pela UFF. Nascido na serra fluminense, hoje vive em São Paulo.
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