Por Danilo Motta*

Hoje o entrevistado é Ari Areia, que disputa uma vaga na Câmara Estadual pelo PSOL do Ceará. Seu número é 50.050. Conheça algumas de suas ideias:

Por que você quer ser deputado estadual?

Inicialmente, não tinha a ideia de me candidatar em 2018, mas os grupos sociais do qual faço parte (as pessoas mais jovens, LGBTs, artistas) foram declarando apoio sem nem mesmo eu ter anunciado qualquer candidatura. Senti que elas passaram a acreditar ainda mais nesse projeto.

Na última legislatura, vimos deputados estaduais que estavam preocupados não em propor direitos mas de retirar direitos. Retirar direito da travesti de usar nome social, retirar liberdade artística, retirar o direito a dignidade da população LGBT, retirar direito da população mais pobre. Por isso, decidi que seria importante colocar essa candidatura. Está cada vez mais urgente barrar o conservadorismo e essa retirada de direitos.

Como avalia a importância de candidaturas LGBT?

Eu acredito que a gente precisa cada vez mais se ver nesses espaços de decisão. Vivemos uma crise de representatividade, muito justificada.

Em 2018, a maioria dos candidatos a deputado estadual no Ceará são brancos ou pardos (91,56%), têm entre 40 e 59 anos (56%), são empresários, advogados ou médicos (22,88%). Dos deputados eleitos em 2014, nenhum se declara negro ou negra. Muito diferente da população brasileira e cearense que tem na sua maioria mulheres, negros e negras e são pobres.

O mesmo acontece com uma candidatura LGBT. No geral, a sociedade nos coloca em lugares marginalizados. Pleitear um lugar nos espaços que são historicamente voltados para homens brancos, heterossexuais e ricos é uma forma de resistência e de luta. Precisamos falar sobre nós e propor debates nas instituições representativas sobre nós.

Acredito também que não basta ser LGBT, precisa de um projeto político que seja voltado para toda a população mais vulnerável: negros, mulheres, pessoas com deficiência e a população mais pobre. Não adianta ser LGBT e continuar legislando para os mais ricos.

Quais projetos devem ser priorizados em um eventual mandato?

Não defenderemos apenas alguns projetos, mas também princípios que nortearão todos os nossos posicionamentos em relação a todos os projetos. Trazemos como princípios:

– RADICALIZAR A DEMOCRACIA: Porque acreditamos que a participação popular na política não pode ser apenas nas eleições.
– CORTAR PRIVILÉGIOS: Algo que se faz necessário urgentemente. O Ceará é o terceiro estado mais desigual do Nordeste. Mais da metade da população vive com menos de um salário mínimo por mês.
– TRANSPARÊNCIA: precisamos criar formas de se comunicar sobre o que acontece no legislativo de forma acessível.

Além desses princípios, tenho como proposta lutar principalmente pelas pautas de Mobilidade, combate a desigualdade social, moradia, cultura e LGBT. Dentro dessas pautas, as principais que pretendo defender são:

– Ampliar recursos para o setor de habitação, revendo todo o planejamento do chamado “Ceará 2040”;
– Lutar pelo Passe Livre intermunicipal, como aconteceu no Rio de Janeiro, e no metrô, que é de responsabilidade do governo do estado;
– Propor projetos de ampliação de recursos para cultura e desburocratização das parcerias estado e artistas, como forma de ampliar e descentralizar o alcance das políticas culturais;
– Fortalecer os espaços culturais independentes que estão espalhados por todo o Ceará;
– Cobrar a criação de um centro de referência LGBT estadual para dar suporte em todo o estado para LGBTs em situação de vulnerabilidade social;
– Incluir na lei orçamentária estadual o ambulatório transexualizador (fui o técnico responsável por fazer isso a nível municipal quando fui assessor de um mandato municipal do PSOL);

Por que a escolha pelo PSOL?

O PSOL, atualmente, tem se mostrado o único partido possível de invenção de novas formas dessa radicalização da democracia. Tenho me inspirado bastante na experiência das Muitas (MG), das Juntas (PE), da Bancada Ativista (SP), de candidaturas como a Talíria Petrone (RJ), Úrsula Vidal (PA), entre outras; e todas são do PSOL.

Para além das candidaturas inspiradoras, eu entendo que no nosso sistema de votação proporcional, o voto vai para um projeto e não somente para o candidato e por isso acho que o projeto coletivo que mais me representa é o PSOL.

Sei que meus votos podem não apenas me eleger, mas eleger vários e várias que estão na minha chapa. E me sinto muito representado por qualquer pessoa do PSOL Ceará que venha a se eleja. Por isso tenho confiança de estar nesse partido e compor essa chapa.

E ainda, existem várias outras questões que o PSOL assume que muitos já sabem, como a defesa das LGBTs, da democracia, do povo negro, do combate a corrupção, entre outros, que reafirmam meu interesse pelo partido.

Você foi candidato em 2014. Qual acumulo você trouxe desde a última campanha?

Trago uma experiência maior de entender como se dão esses processos eleitorais. Sempre fui próximo do PSOL, participava como eleitor, mas nunca tinha mergulhado a fundo nesses processos. Para 2018, entendo melhor como tudo funciona e consigo dialogar mais com o momento que vivemos.

Por não ser a primeira vez também, as pessoas conseguem me enxergar cada vez mais como parlamentar. O olhar delas para essa nova campanha mudou um pouco, positivamente, e isso tem sido muito importante.

Participar de uma eleição enquanto candidato é algo muito difícil, mas é importante viver esse processo de forma sadia construindo um trabalho bonito de se ver. E acho que esse foi o principal ensinamento de 2016.

Qual recado você deixa para os LGBTs do Ceará?

#VotaNaPOC hahaha Mas não só isso, vota e acompanha, e cobra, e divulga, e participa, e espalha, e chega junto. Precisamos estar juntos e juntas para enfrentar esse conservadorismo. Política bonita de se ver só se faz no encontro, no coletivo. E é isso que eu quero.

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* Danilo Motta é jornalista e mestre em Literatura pela UFF. Nascido na serra fluminense, hoje vive em São Paulo.
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