Por Renan Wilbert*

Estou escutando muito rap ultimamente e fico impressionado todas as vezes que escuto “Mandume”, do Emicida, especialmente o refrão que diz “Eles querem que alguém / Que vem de onde nóiz vem / Seja mais humilde, baixa a cabeça / Nunca revide, finge que esqueceu a coisa toda / Eu quero é que eles se f*” e completa com uma voz quase infantil que diz “Nunca deu nada pra nóiz, c*ralho! / Nunca lembrou de nóiz, c*ralho!”. Esse refrão, para mim, fala diretamente a algo que muitos aconselham quando começamos a militar, aquela obrigação de ser calmo, didático, amoroso e respeitoso com todos em todas as situações.

Aliás, desde pequenos somos ensinados a reprimir nossos sentimentos ruins. Não pode ficar triste, não pode ter inveja, não pode ter raiva. Só pode ser feliz. Só que nem sempre dá pra ser feliz porque a felicidade não é a resposta a todas as situações. E dar espaço para sentimentos negativos pode ser a chave para entendermos a origem desses sentimentos e tratarmos o problema pela causa, não pelo sintoma. Eu vou voltar nisso daqui a pouco.

Não sei se vocês já tentaram meditar. Eu procuro fazer, pelo menos, uma vez por semana, com a ajuda de um aplicativo gratuito. Antigamente, eu achava que era algo impossível. Como assim, sentar e não pensar em nada? Para que isso? Para que serve? Não vou conseguir! Mas aí eu falei um dia que não custava tentar. E logo na primeira meditação, o moço na voz do áudio disse que não tem problema ter pensamentos durante a meditação. Isso é natural. Não lute contra eles. Agradeça sua manifestação, os deixe partir e volte a eles depois que terminar de meditar, se quiser. E isso tem tudo a ver com sentimentos ruins também. Quando você sente algo ruim, se sua reação é dizer que não pode sentir aquilo, que é errado, você não apenas não se livra desses sentimentos, deixando-os dentro de você, criando raízes e dores, como você ainda se culpa por cometer o grande erro de sentir tudo aquilo. Só aí, temos a importância de você viver seus sentimentos ruins – o que inclui seu ódio.

Agora vamos voltar para o que eu tinha falado. Uma vez que você aceita o ódio que sente, você pode entender de onde ele vem e lutar contra o que causa esse ódio. Se você é pertencente a uma comunidade oprimida – negros, mulheres, LGBTs, gordos, pobres – e você segue essa linha de raciocínio, é bem provável que seu ódio venha da opressão que você sofre. E é aí que está: Se você não viver seu ódio, talvez não fique tão evidente para você as raízes desse sentimento e a luta não seja tão urgente para você. E você pode ter certeza: Tem muita gente se pelando de medo que você dê voz ao seu ódio e lute, porque essa galera sabe que somos maioria, que somos fortes e que somos inteligentes o suficiente para conseguir o que a gente quiser. E o medo deles é que, uma vez que consigamos, seja a vez deles de ser oprimido, porque uma relação sem opressões não é algo que eles conheçam.

É claro que se permitir ao ódio não significa ignorar o amor. O amor é importante para nós e para nossos pares, mas o amor não resolve tudo, não importa o que as Chiquititas tenham dito para você! Quantas vezes eu fiz um texto com boas bases teóricas, exemplos, conceitos e argumentos bem estruturados, algo que levou horas para ficar pronto, para alguém que sequer passou do primeiro parágrafo venha e diga argumentos que não fazem o menor sentido? Quantas vezes eu não me perguntei se o problema estava no meu texto, no meu argumento? Até chegar à conclusão de que há pessoas que não estão dispostas a ouvir e a mudar. Pessoas que simplesmente estão do outro lado da luta, o lado do inimigo. Com essas pessoas, amor, didatismo e calma serão desperdiçados, e essa conversa só servirá para te frustrar e te obrigar a mascarar seu ódio. A alternativa? Exatamente: Mandar tomar no meio do olho do c*. Porque com inimigo não há outra possibilidade além do combate.

Daí precisamos também melhorar nossas habilidades em entender quem são nossos inimigos. É muito comum, quando falamos de opressões dentro do meio LGBT, que um gay branco classe média que há cinco minutos tinha falado que “as trans estão roubando o espaço dos gays” vire e diga que “você está dividindo os LGBTs/os gays!” e que “Nossos reais inimigos estão lá fora!”. Olha, que temos inimigos lá fora isso a gente sabe, mas chega uma hora que percebemos que temos, sim, inimigos aqui dentro. O simples fato de uma pessoa partilhar uma opressão com você não significa que ela não seja opressora em outras aspectos, aspectos que são fundamentais, inclusive, para definir que ela não está do mesmo lado que você. E é nessa hora que ela diz que “os inimigos estão lá fora” que ela apela para aquele velho discurso de calar o ódio do outro – enquanto o ódio dele está mascarado com argumentos tortos.

Vai ter gente que vai querer argumentar que “Mas ódio só traz mais ódio”. E eu respondo que é exatamente isso. Ódio só traz mais ódio. E é esse ódio que estamos levando de volta, porque, até hoje essa conta está saindo muito barata para quem oprime.

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*Renan Wilbert é jornalista, criador da página Igreja de Santa Cher na Terra.

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