Por Murilo Melo*

Há alguns meses um cineasta bissexual cismou comigo. Ah, seus textos isso, seus textos aquilo. Sua foto isso. Seu jeito de falar aquilo. Olha como você se veste. Olha como você sorri. Você, Murilo. Ah, que homem. Que delícia de homem é você. E durante seis meses ele me mandou mensagens por WhatsApp e Messenger, quase diárias, a respeito dessa adoração. Quero você, Murilo. Quero você!!!!!

Aí ele finalmente deixou o trabalho em São Paulo e veio lançar o filme no Panorama Internacional Coisa de Cinema, no Glauber Rocha. E quero te ver daqui, preciso te conhecer dali. Hoje não dá? Como assim? Mas ainda são duas da manhã! Você, Murilo. Ah, que homem. E o cara me mandava mensagem na metade do filme, pouquinho antes de começar, pouquinho depois de terminar. Uma loucura!

Durante as filmagens, Deus me livre, uma obsessão que nunca vi. Apaixonado, completamente apaixonado. E me mandava fotos de ingressos. E me dizia que podia guardar a cadeira no melhor lugar da sala do cinema. A cadeira estratégica pra eu ver o filme melhor do que todo mundo. E pode trazer quem você quiser, mas melhor que venha sozinho. Preciso te conhecer, preciso muito. Você, nossa, que homem. E eu fui. Ah, eu fui. Fui todo depilado e com cueca nova. Seis meses no meu pé, sempre com a mesma frase “preciso te conhecer”, sempre com essa obsessão. Eu fui. E achei ele lindo. E cheiroso. E interessante. E inteligente. E juro que ele foi, nesses últimos anos, o melhor beijo na boca e o melhor sexo que já fiz.

E a coisa crescia absurdamente. Ah, Murilo. O cheiro do seu cabelo, seu toque, seu sorriso, sua mania de falar pausadamente. O cara, se pudesse, comprava uma moldura e me colocava na parede da sala. Se pudesse, me fazia virar uma estátua na entrada do condomínio. Se pudesse, brigava com a Unesco pra que eu virasse patrimônio da humanidade. Juro, nunca ninguém ficou tão encantado por mim.

Ele chegou ao ponto de, no dia do filme ficar em cartaz pela primeira vez em São Paulo, agradecer a Deus olhando pra mim, que, mais uma vez estava babando o trabalho dele, que nem besta, na cadeira estratégica pra ver o filme. E me abraçou forte por meia hora, no final dos créditos, deixando com a cara pra cima todos os convidados que queriam cumprimentá-lo. Tipo: eu era Deus! Tipo: dane-se o resto.

E então, ele me levou pra casa dele e a coisa só piorou. Por que eu fui inventar de dormir com esse homem? Ah, Murilo. Porque você sem roupa, porque seus olhos fechados, porque você enrolado no meu edredom, porque você dormindo, porque você acordando, porque você me dando beijinhos, porque a gente transando quase de manhã, porque tomar banho com você, porque eu sei, homem da minha vida, escrita profunda, sensibilidade absurda, alma humana, humor genial, acidez charmosa, que homem, que homem, que homem, eu nunca mais vou conseguir viver sem você, não aguento ficar longe, não quero mais viajar e te deixar aqui, você pode o que você quiser, é você, é você.

E me levava pra conhecer os amigos de Salvador, de São Paulo, do Rio “se preparem pra amar esse homem pra sempre, porque é o que eu já tô fazendo”. E não existia segunda, nem terça e nem quarta. Todo dia era fim de semana. Todo dia era dia de me buscar no trabalho ou na Ufba e me levar pra um bar, um lugar que eu “precisava conhecer” e namorar e ouvir aquelas coisas todas. E de sempre, no final, me pedir pra ficar mais um pouco. E quando eu me dava conta, lá se foi mais duas horas.

E ele assistia filme comigo abraçado no sofá da sala, me apertando tanto, sem nem conseguir me deixar respirar. E pausava o filme pra me mostrar a foto dele quando criança dentro de um daqueles álbuns na mesinha lateral: “olha a cara do nosso filho”, “mas eu quero que tenha o mesmo sorriso que você”. E ai de mim se, por algum descuido, topasse sair com algum amigo ao invés de ir naquele apartamento gigantesco onde ele sempre me colocava no pedestal. E eu quieto, comendo mais uma caixa de Bis, vendo aquilo tudo. Querendo acreditar devagar, sem euforia, mas acreditando às pressas porque, afinal, a vida é uma bosta gigante e eu deveria mesmo merecer esse homem gato, inteligente e completamente apaixonado por mim. Por que não? Sim, sim, eu merecia! Eu não podia estragar. Eu merecia muito ser feliz.

E então, numa noite, depois de me levar no Pereira e me dar uma pulseirinha escrita “I love you” e me apresentar como namorado pra todos os garçons do restaurante, eu decidi que gostava desse cara. Mas era um gostar quase amor. Mas eu ainda não amava ele. Mas gostava tanto a ponto de querer que ele não fosse embora nunca mais. E porque decidi que então eu estava naquela relação intensa (e qualquer gay romântico e um pouco desacreditado na vida que decide isso precisa de algumas garantias pra não se sentir inseguro), achei que não teria problema em dizer pra ele o quanto eu sofria por não ter mais espaços em Salvador pra ele rodar o filme, que eu estava mal-humorado com o fim do Panorama, se não tinha como prolongar aquele mesão de chope com os amigos do cinema, se ele iria largar a produtora em São Paulo e voltaria a morar em Salvador ou se ao menos viria me ver toda semana, se ele ia se comportar em São Paulo, longe de mim, frequentando aqueles bares da Augusta cheios de viadinhos alternativos e barbudos da Escola de Atores Wolf Maya querendo fazer um teste de sofá pra ter uma chance no cinema, se ele queria mesmo ficar comigo, se ele sabe que desde criança eu quero ser pai. Aquela ladainha normal de qualquer gay romântico que quer que dessa vez dê certo, que se sente à vontade pra ser chato pra caralho depois que o cara confirma na tecla verde de que “curtiu o beijo, o sexo, conheceu a família e está insuportavelmente apaixonado e obcecado por você”.

E ele coçou o redemoinho do cabelo. E levantou do sofazinho. Espreguiçou. Fumou um cigarro na janela. Depois outro. Foi tomar banho sem falar nada. Silêncio. Ficou uma semana sem me ligar, sem me mandar mensagens. Silêncio total. E depois, porque quando deixam de me amar eu começo a amar, fui pra São Paulo, louco, desesperado, tudo bagunçado dentro da mala, pra tentar entender o que é que tava acontecendo. Eu precisava saber. Onde a gente tinha perdido a cor? Ele me disse, com uma frieza e descaso que até hoje me dilaceram e me fizeram duvidar mais ainda da existência do amor: “ah, Murilo, você é chato”. O quê? “Você é chato, seus textos são chatos, sua vida é chata. Eu prefiro mulheres, porque elas são chatas, mas já aprenderam que homem na maioria das vezes não vai ligar no dia seguinte”. É, gays são chatos mesmo. O que é melhor, infinitamente melhor, do que ser escroto como você.


*Murilo Melo é escritor, jornalista e roteirista. Autor do livro ‘Sentir é pesado demais pra eu carregar sozinho’.

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